Moradores de em Janaúba, no norte de Minas, continuam velando e enterrando os mortos da tragédia em creche municipal.

• atualizado em 07/10/2017 às 16:55  

São mais de 23h30 de sexta-feira, 6, e um homem encostado no muro consulta o relógio de pulso para conferir o atraso no velório, previsto para começar às 22 horas com a chegada do corpo da pequena Cecília Gonçalves Dias, de 4 anos, na casa da família, em Janaúba, no norte de Minas. Na casa da frente, um vizinho ouve forró nas alturas.

Em uma rua de terra batida, precariamente iluminada por um único poste de luz, dezenas de moradores da cidade, que tem cerca de 70 mil habitantes, amigos e familiares estão reunidos para se despedir de uma das vítimas do incêndio na creche Gente Inocente, em uma cena que se tornou comum nos últimos dias. Do lado de fora da casa, há cerca de 20 pessoas. Dentro, outras 30 estão sentadas em cadeiras de plástico.

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Trata-se da maior tragédia da história do município, com a morte de oito crianças, uma professora e do autor do crime – além de outras 13 pessoas que permancem em estado gravíssimo, internadas em hospitais.

Com exceção da professora Heley de Abreu, de 43 anos, que morreu após lutar contra o agressor e salvar crianças, todos os velórios aconteceram na casa das famílias, em meio a símbolos religiosos e fotografias dos mortos. Mesmo feitos de madrugada, concentraram dezenas de pessoas. Não raro, moradores iam pulando de uma cerimônia para outra.

Na manhã de quinta, 5, o vigilante Damião Soares dos Santos, de 50 anos, entrou na creche no momento em que a diretora, professores e alunos faziam os preparativos para a festa de dia das crianças. Em seguida, ele espalhou combustível e acendeu um palito de fósforo.

Cecília é uma das três crianças que foram socorridas com vida da creche e morreram depois no hospital. Ainda na quinta, ela chegou a ter o óbito divulgado pelo Corpo de Bombeiros de Minas, após sofrer uma parada cardiorrespiratória, mas a equipe médico conseguiu reanimá-la. Transferida para a Santa Casa de Montes Claros, não resistiu.

“O médico chorou ao ler o laudo dela para a gente, ninguém se acostuma com essa situação”, conta o pai Adilson Almeida Gonçalves, de 25 anos, enquanto aguarda em casa o carro funerário chegar, sem dormir desdr a tragédia. Ao lado dele, o pastor Pastor João Alves, que acompanha a família, o consola. “Vamos louvar agradecendo a Deus, para que traga conforto e consolo a todos.”

Ao contrário de outras vítimas, Cecília não precisou ser velada com o caixão fechado. Os principais ferimentos que sofreu foi na região das costas, provocados pela queda do forro de PVC, que derreteu com as chamas. “A maior alegria da minha vida foi a chegada dessa menina”, diz Gonçalves, sobre a filha única.

“Nós escolhemos velar em casa, é o lugar dela, onde sempre se divertia, onde sempre brincava”, diz Gonçalves. Em bacias de plásticos, pouco menores do que um baú, os presentes circulam pão de queijo e biscoitos de polvilho. Também há café, chá e água. Os alimentos foram doados pela prefeitura e órgãos de segurança.

Mesmo com a chegada do caixão, às 0h27, posto em frente a um painel com cinco fotos da criança, Gonçalves mostrou uma serenidade que se estendeu até o sepultamento, na manhã seguinte. Sob medicamento, a mãe passou mal e chegou a se atirar no chão do cemitério. Só uma lágrima escapou do pai. Foi quando apontou para uma das fotos do painel, em que a criança, de lacinho rosa na cabeça, posa ao lado da mãe.

“Foi o último passeio que a gente fez, para ver uma competição de cavalo, no mês passado.”

Dor

Logo após deixar o corpo de Cecília em casa, o carro funerário seguiu poucos metros até onde outras dezenas de pessoas aguardavam para o velório de Yasmin Medeiros Sabino, também de 4 anos. Com o calor, apesar do avanço das horas, os homens usavam bermuda e chinelo; as mulheres, vestidos floridos.

Com a parada do veículo, adultos aproveitaram para tirar, carregando no colo, as crianças menores. A menina, que teve 90% do corpo queimado, era criada só pela mãe, que gritava prolongados “ais”, em meio ao silêncio e fungados de choro dos outros. “Você não está entendo”, repetia, ao lado do caixão.  “É uma dor terrível. É uma dor terrível.”

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