Obras sobre papel completa dois anos em Belo Horizonte

Espaço dedicado à obras sobre papel se consolidou no cenário das artes na cidade.

 

cAsA – Foto: Matheus Baranowski

“Há um encantamento especial na arte sobre papel. A delicadeza do suporte desafia os artistas e a energia que eles sabem transmitir em suas criações. E pede a atenção protetora do espectador. Ter em Belo Horizonte uma galeria consagrada a trabalhos sobre papel, raridade no Brasil, é um privilégio à altura dos desenhistas, gravadores, aquarelistas e pintores mineiros, largamente reconhecidos pela qualidade de sua produção. Os colecionadores e o público vão achar a galeria linda, muito bem instalada em imóvel de sabor histórico, em trecho da cidade que guarda o mesmo charme da galeria. ” Ângelo Osvaldo – Secretário de Estado da Cultura de Minas Gerais.

Há dois anos, Belo Horizonte conta com um espaço privilegiado no âmbito das artes plásticas: a cAsA – Obras Sobre Papel. Idealizada por Lúcia Palhano, trata-se de um dos pouquíssimos locais no Brasil especializado na arte cujo suporte é o papel, especialmente a gravura. Neste período, ela praticamente dobrou seu acervo e conta com mais de mil obras, de nomes como Goeldi, Abelardo da Hora, Iberê Camargo, Erick Demazieres, Salvador Dali e Picasso.

O espaço firmou-se como referência em gravura na cidade e atua por dois caminhos, as exposições e o educativo. Foram sete mostras ao longo de dois anos: “Todos André”, “Impressões – Mulheres artistas no acervo da cAsA”, “Poética da Resistência”, “Octávio Araújo: Alquimia & Gravura”, “Sombras que ficam”, “Paisagem Fragmentada” e “Prosaica Humanidade”. Neste contexto, é interessante observar que, dentre elas, duas foram coletivas de acervo, que demonstram um amadurecimento em relação aos próprios trabalhos e ao olhar sobre eles.

“A cAsA conseguiu se colocar como ponto de referência principalmente para a arte em BH, trazendo um recorte não usual, com novas possibilidades da expressão em papel. E é bonito ver como a equipe passou a trabalhar de maneira autônoma. Apesar de ótimas parcerias, as curadorias próprias são muito potentes e demonstram uma visão dinâmica sobre o próprio acervo”, comenta Alê Fonseca, um dos idealizadores do espaço.

Opinião endossada por George Gutlich, professor na disciplina de gravura em metal, no departamento de artes plásticas na escola de Belas Artes da UFMG: “O mais importante lá é a qualidade do que é exposto. Os projetos curatoriais nunca tiveram uma orientação comercial. Trata-se de um olhar que não se dá por um recorte tendencioso, como artistas famosos, por exemplo. Há uma orientação por um eixo de condução conceitual, que sobrepõe os conceitos habituais e produz um efeito fundamental: educa”.

Além da promoção e circulação de gravuras, desenhos, aquarelas, fotografias, a galeria realiza periodicamente palestras, cursos, seminários, exibição de filmes, encontros com os artistas e se tornou um espaço aberto aos estudantes e pesquisadores.

“Como professora da Escola de Belas Artes, realizo muitas visitas com meus alunos à cAsA e vi que eles passaram a perceber a força do papel, a valorizar. O papel virou um ponto de referência na questão didática. Então, as visitas com as turmas de alunos se tornaram uma extensão da minha prática artística. Eles desenham, anotam, sentem as texturas. Tocar as gravuras é um privilégio, elas pedem essa aproximação física, e ver o testemunho daquela arte no papel, para os estudantes, é o máximo”, conta Maria do Céu Diel.

Atualmente, a cAsA – Obras Sobre Papel mantém, até o dia 23 de dezembro, a exposição “Prosaica Humanidade”, uma coletiva de acervo que traz homem comum em suas atividades, do banal, passando pelo sofrimento e o trabalho até chegar morte. A mostra conta com 37 gravuras de 29 artistas, entre eles Erik Desmazières, Käthe Kollwitz, Evandro Carlos Jardim, Francisco Goya, Marc Chagall, Oswaldo Goeldi e Renina Katz.

ORIGEM DA cAsA – OBRAS SOBRE PAPEL

Alê Fonseca é fotógrafo, músico e fez habilitação em gravura no curso de graduação de artes visuais na UFMG. Com o irmão André Palhano, tecia horas de conversas sobre o papel, dos sonhos e das imagens do mundo. André era advogado, viajava muito e começou a colecionar obras sobre papel. Tinha vontade de abrir um espaço para gravuras. Em 15 de junho de 2012, um acidente o levou para uma viagem maior, sem volta.

Depois disso, Lúcia Palhano, sua mãe, passou a receber obras vindas pelos correios, de diferentes países, que André havia comprado. Alê, entusiasta do assunto, foi o professor e incentivador da mãe, que mergulhou neste universo admirada pelas imagens das obras sobre papel, adquirindo mais e mais trabalhos.

Aos poucos, com o apoio do Luiz Carlos Fonseca, seu marido, e o incentivo dos seus dois filhos, cada um à sua maneira, o projeto de dar um lugar a este legado foi tomando forma e ganhou um endereço e também um nome – referência ao acolhimento do ambiente ‘casa’ e às letras iniciais dos dois filhos de Lúcia.

CONSERVAÇÃO DO ACERVO

A cAsA inovou não só na proposta, mas na forma de conservação dessas obras tão delicadas e importantes. Para garantir a vida útil ao material e o estado ideal para sua exposição, a equipe de conservadoras estudou minuciosamente as melhores formas de acondicionar as peças do acervo. O projeto incluiu a higienização das obras, a confecção manual das embalagens, a catalogação, o transporte e o mapeamento.

A equipe estudou em detalhes todo o acervo e produziu cinco tipos de embalagens em um papel neutro, específico para esta finalidade, considerado a forma mais adequada de conservá-las. Os envelopes foram produzidos um a um, manualmente, divididos em grupos de acordo com o tamanho das peças para acondicionar a coleção de maneira harmônica. A coleção foi mapeada, documentando o estado de conservação de cada obra e a sua localização no acervo.

Além de explorar um importante acervo de gravuras e outras obras de arte, quem visita a cAsA – Obras Sobre Papel tem a oportunidade de conhecer um refúgio em Belo Horizonte. Localizada em uma graciosa vila, com arquitetura singular e iluminação especial, o espaço se diferencia do padrão frio e branco das galerias de arte tradicionais. O aconchegante imóvel fica na Avenida Brasil, 75, na zona Leste da capital mineira.

Serviço:

cAsA – Obras Sobre Papel
Avenida Brasil, 75 – Santa Efigênia – BH/MG
(31) 2534-0899

DEPOIMENTOS

Cláudia Renault, professora da Escola Guignard
“A cAsA é um espaço interessante, tem uma boa programação que tem sido constante e isso é maravilhoso. Os catálogos são muito importantes, uma iniciativa excelente que prolonga e eterniza a mostra. Eu sempre que vou lá pego alguns exemplares e levo aos meus alunos da Guignard. E um espaço que dá esse valor ao papel, que é tão delicado e perecível, é fundamental. E cAsA cuida muito bem do seu acervo, tem um projeto se conservação, esse valor à gravura e às obras sobre papel é muito importante. Tenho mais é que dar os parabéns pelos dois anos”.

Lotus Lobo, artista
“Acho a proposta do espaço fantástica! Acredito que eles entenderam a linguagem de trabalhar com gravura. Trabalho com isso há mais de 50 anos, durante a minha carreira já dirigi casas de gravuras e espaços especializados. Sei como é necessário ter um esquema apropriado para trabalhar com papel, como conservar, como manusear e sinto que a Lúcia conseguiu. A maioria das galerias evitam trabalhar com gravuras, por isso entendo a cAsA como um dos espaços acima da média das galerias do Brasil, pois tem foco e tem direção.”

Lúcia Castello Branco, escritora.
“A cAsA é nossa vizinha, temos um espaço de literatura e psicanálise bem próximo de onde fica a galeria. Acompanhei desde o começo, quando a Lúcia se interessou pelo espaço, querendo dar um destino à coleção de arte do filho. Estive na primeira exposição e ao longo do tempo compreendi o tamanho da importância da cAsA e o amadurecimento deles no processo de curadoria. Acho importante o trabalho não só para a cidade, mas para a própria região. Para mim, que sou escritora, o papel é um privilégio. Acredito que a gravura tem tudo a ver com a escrita, tudo sobre papel me interessa: gravura, livros, fotografias. Ao longo desses dois anos, a cAsA foi criando catálogos, se especializando no cuidado com o papel e só tem apurado a curadoria. As exposições estão mais coesas, enxutas, elegantes, cleans, orgânicas.

Chico Baumecker
“Acho o espaço muito bom porque privilegia o papel, além de dar toda a segurança pra quem expõe e pra quem compra. É muito bonito ter uma pessoa que se dedica a trabalhar com isso, ainda mais em Belo Horizonte, onde temos artistas que produzem obras desse meio. É um espaço que conta a história da arte sobre papel por meio de seu acervo supercompleto e suas exposições. A conservação de obras desse tipo não é fácil, precisa ter uma série de cuidados, tanto no manuseio quanto para se expor e eles fazem isso muito bem. Cada exposição que eles fazem é melhor do que a outra.”

Eduardo Eckenfels
“Minha relação com a cAsA é em relação à fotografia e amizade. Realizo registros das exposições e me afeiçoei bastante com o astral do local e das pessoas. Acredito que nesses dois anos, o espaço está se firmando como um local de alto nível, quando pensamos em arte e papel. É muito comum ver jovens e estudantes de escolas de arte por lá.”

Rafael Casamenor, artista
“Esse é um espaço único, não só a nível nacional, mas naquilo que motivou a criação dele. Possui de longe o maior e mais particular acervo do estado. Da mesma forma que a casa é única, ela está bem alinhada com a proposta do nosso ateliê, o Casa Gravada, somos oito artistas de gravura e nos identificamos muito com a proposta. Este espaço é de fundamental importância não só pela circulação de obras deste tipo, mas também pela formação de público e conservação desse repertório de arte impressa, por conservar parte dessa riqueza desse acervo qualificado”.

Tales Bedeschi, artista
“Este espaço preenche uma lacuna neste cenário, principalmente quando se diz respeito ao acesso para os estudantes em seu acervo e pesquisas. Não temos nada no âmbito público que se assemelhe à casa, por isso temos a sorte de ter esse espaço na carência de algo público. Esses dois anos retratam, ao que me parece, um processo tranquilo de amadurecimento, mas que ainda se mantém firme com seu primeiro impulso: a paixão pelo impresso.”

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